Balanço das atividades de 2014 – Coletiva das Vadias de Campinas

2014 passou e vamos relembrar aqui a vadiagem que fizemos durante todo o ano…

08 de Março – Participamos de toda organizacao e realizamos o Jogral no Ato do Dia Internacional das Mulheres em Campinasreuniao para oito de marco 2014 reuniao para oito de marco 2014 (1)

080314 080314 a 080314 b

17/03 – Debate Descriminalização X Legalização – CR DST/Aids

atividade aborto 17-03 b

Curso de Formação das Promotoras Legais Populares Associação Cida da Terra (03/2014 – 09/2014)

curso plps d curso plps c  curso plps a curso plpscurso plps b23/03 – 8a Feijoada das Marias do Jongo,

Feijoada Marias do Jongo 230314 (5)

29/03 – Buteco das Vadias – Mulheres em Luta (ReaJa),buteco mulheres em luta 290314 b buteco mulheres em luta 290314 c

02/04 – Ato do Sindicato das Domésticas um ano da PEC 72/13 sem regulamentação

Ato domesticas 020414 (1)  Ato domesticas 020414 (3) Ato domesticas 020414 (4) Ato domesticas 020414 (5) Ato domesticas 020414 (2)Ato domesticas 020414 (8)30/04 – Colagem de cartazes no Jardim America: protesto aos casos de violência ocorrido nos bairro.

10/05 – Marcha da Maconha de Campinas

marcha da maconha marcha da maconha 2

10/05 – Bananas x Vadias – debate sobre racismo na mídia com a escritora Cidinha da Silva

bananas x vadias

18/05 – Atividade na Comunidade Menino Chorão – Dia Cultural: Inauguração da Oficina Cultural de Mulheres,

inauguracao centro cultural menino chorao b

inauguracao centro cultural menino chorao inauguracao centro cultural menino chorao 180514 inauguracao centro cultural menino chorao  180514

19/05 – Cine Vadia : Filme Thelma e Louise,

21/05 – GruVa Educação : Oficina Construção Social dos Gêneros com professores da Escola Estadual Telêmeco Paioli Melges – San Martin

02/06 – Puta Dei

 puta dei 020614 putadei 020614

07/06 – Ato contra a revogação da portaria 415 – legalização do aborto em SP

ato contra revogacao portaria 415 SP 070614 16/06 – Formacao da Auto-Defesa com Lauren Souza,

formacao com a lauren

03/07 – Debate Legalização X Descriminalizacao do aborto,

aborto 2 030714

19/07 – Exibição do filme Mulheres Guerreiras : desbravando as estradas da vida – Jardim Itatinga

desbavando estradas da vida20/07 – Tradicional Feijoada das Domésticas

tradicional feijoada das domesticas 20071422/07 – Formação Interna sobre Diretos Sexuais e Reprodutivos com Claudia Barros

formacao interna 220714 (2)23/07 – Debate e apresentacao do Filme Mulheres Guerreiras no MIS

26/07 – Encontro de mulheres – Oficina com Forum pela Humanização do parto na Comunidade Menino Chorão

encontro na comunidade menino chorao 260714 (2)01 e 02/ 08 – I Congresso Estadual de Mulheres Catadoras

congresso_foto16/08 – Reuniao aberta para organizacao do Ato pela Descriminalização do Aborto,

17/08 – Frango com Polenta e Politica organizado pelas PLPs,

frango polenta e politicafrango polenta e politica 3

19/08 – GruVa Educação : Palestra Feminismo – ETEC Rosa Perrone Scavone – Itatiba

 29/08 – Desabrocha sapatônico (junto com o Coletivo Babado)

 13/09 – Buteco das Vadias – Descriminalização do Aborto,

 buteco 130914 (4) buteco 130914 (2) buteco 130914 (1)

18/09 – GruVa Educação – Exibição do Filme Mulheres Guerreiras : desbravando as estradas da vida – Escola Estadual Reverendo Profº José Carlos Nogueira – Bela Vista

GruVa Educacao BV 5 GruVa Educacao BV 4GruVa Educacao BV

21/09 – Parada LGBT de Campinas, com Coletivo Babado e Grupo Identidadebonde dxs coloridxs

 27/09 – Marcha das Vadias de Campinas pela Descriminalização do Aborto.

reuniao pre marcha (1) reuniao pre marcha (5) reuniao pre marcha (2) mv aborto 290914

19/10 – Almoço em honra de Laudelina e inauguração do Espaço Interativo Laudelina de Campos Melo no Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas

almoco em honra de laudelina 191014 inauguracao espaco laudelina 191014

16/11 – Debate Prostituição Regulamentada: Pra Quem e Por Quê? Com Grupo Identidade

debate regulamentacao prostituicao 161114E QUE 2015 SEJA DE MUITA VADIAGEM, MUITA LUTA E MUITAS CONQUISTAS!

MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!!!

29 de janeiro é o Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais.

10923778_1609294099299190_6530525493928439971_oDivulgação:

“Para este dia o Grupo Identidade uniu-se ao Coletivo TransTornar para reunir no Centro de Saúde do Jardim Itatinga tanto a população de travestis e transexuais, quanto nossos aliados e os movimentos sociais de toda a região. Exibiremos o documentário “Se Me Deixam Sonhar” de Denise Martins (com presença da diretora), que retrata a militância T em Campinas, e realizaremos ainda uma oficina com a travesti militante Janaina Lima representando o Itatinga, a mulher trans Leila Dumaresq explorando o transfeminismo e o homem trans Luciano Palhano trazendo pro Itatinga o Ibrat – Instituto Brasileiro De Transmasculinidade, principal organização de homens trans do Brasil, Amara Moira na coordenação da mesa, oficina / conversa sobre nossa luta por direitos, sobre empoderamento de pessoas trans e travestis, para despertar o interesse, reavivar os laços de apoio e aproximar todos os interessados na luta por igualdade para todas as identidades de gênero.

Contamos com sua presença para enriquecer nossos trabalhos.”

Organização:
* Grupo Identidade
* Coletivo TransTornar

Apoio:
* Associação Mulheres Guerreiras
* Centro de Saúde Santos Dumont
* Centro de Referência DST/AIDS Campinas
* Centro de Referência LGBT Campinas
* Coletivo Babado

E vai ter caravana pra galera chegar junto!!!

“CARAVANA UNICAMP – ITATINGA

Você conhece o Itatinga, benhê? Sabe oq é q é aquilo lá, aquela loucura, vontadezinha de saber, ver de perto o coração travesti da cidade, maior meretrício a céu aberto da América Latina? Pois é, é agora. A comunidade de transexuais e travestis de Campinas decidiu montar lá o nosso QG, encontro poderosérrimo pra ver filme das militantes babadeiras T da cidade (muitas que estão por aí bela e formosas, muitas que já se foram e deixaram saudades, momento de relembrar cada uma delas) e depois ouvir e ver três pessoas incríveis atacando sem dó a cis-heteronormatividade: a travesti militante Janaina Lima representando o Itatinga, o homem trans Luciano Palhano representando o Ibrat – Instituto Brasileiro De Transmasculinidade e a mulher trans Leila Dumaresq representando o transfeminismo, com Amara Moira transvesti puta escritora coordenando a mesa! Então fica o convite: todes nos reunamos quinta às 13h50 no Terminal Central, ali do lado do balcão de informações, com cartazes de transes e travestises empoderadonxs, vestides a caráter, dando a cara a tapa, causando furdunço na multidão até a partida do ônibus 1.20 (às 14h10) que vai direto pro nosso encontro… quem tiver por ali verá, quem quer sua chance de conhecer o Itatinga é essa. Recapitulando então:

— encontro no Terminal Central de Campinas às 13h50
— partida do ônibus 1.20 às 14h10 direto pro nosso evento maravilindo

Não perca, vai ser bafão! Quem vamos?”

Almoço em homenagem a luta de Laudelina de Campos Melo – Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas

Dia 19/10/2014 será realizado no Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas o tradicional almoço em honra da vida de luta de Laudelina de Campos Melo, cuja trajetória foi fundamental para a organização da categoria na busca de direitos.

O processo de regulamentação dos direitos dessas trabalhadoras ainda está em curso!
E nunca é demais lembrar que não aceitaremos retrocessos! Às trabalhadoras domésticas, nenhum direito a menos!!!
Precisamos atuar todos nesta luta!

Local: Rua Ataulfo Alves, 396

Castelo Branco, Campinas.

A partir das 11h30

Convites pelo telefone – 32291377

Valor R$20,00

 10606294_745666488803227_258859848704956349_n

Buteco das Vadias pela Descriminalização do Aborto

Aeee!
Vem aí o quarto BUTECO DAS VADIAS pra animar a galera!
Do jeitinho que vocês conhecem, liberdade, libertinagem e música boa.

E dessa vez ainda com um plus: é a preparação para a Marcha das Vadias de Campinas em manifestação pela Descriminalização do Aborto!
Fiquem atentxs que logo divulgaremos mais informações!!!

Aonde? No Bar do Ademir, em frente ao portão do meio da moradia da Unicamp (Avenida Santa Isabel, Barão Geraldo)

Estaremos cobrando entrada (R$5,00) para financiar ações de luta contra a violência contra a mulher e nossas ações de incentivo à discussão pela descriminalização do aborto.

Cheguem cedo pra vadiar bastante! O Buteco fecha à 01h da manhã, sem mais delongas…

Evento no face

buteco 1609

Vadia e sapatona! E daí? Somos sim!

Lésbica, Sapatona, Fachona, Sapatão, Machona, Sapa, Caminhoneira, Sapatilha, Chupa charque, Racha, Lés, Cola Velcro… hoje é o nosso dia! Dia de ressignificar todos esses termos, escancarar as portas do armário e exibir todas as nossas expressões e vontades. Hoje é o dia nacional da visibilidade lésbica! Data que surgiu no ano de 1996 durante o 1º Seminário Nacional de Lésbicas – Senale, e foi instituído por companheiras militantes lésbicas brasileiras com o intuito de visibilizar nossas demandas e lutas.
caminhada lésbica

Mas porque é preciso um dia da visibilidade lésbica? Nós somos invisíveis?
Vivemos em uma sociedade que adota a norma heterossexual padrão que pensa o sexo a partir da penetração do falo. Mas e ae, como duas mulheres fazem sexo então? Tem uma que faz o papel do homem? É muito comum inclusive uma lésbica que nunca se relacionou com um homem ser perguntada: você é virgem? O que é fazer sexo então?
Dar visibilidade a nós lésbicas é pensar para além dessa relação heterossexual, para além da penetração e para além do falo. Sexualidade lésbica não é o que se vê na grande mídia, que continua a construir nossos desejos a partir de um fetiche, de uma vontade do homem.

tumblr_ll1qfq9gbm1qhia0no1_1280

Pensamos que a invisibilidade das lésbicas também passa pela invisibilidade da sexualidade velada da mulher. Nossa sexualidade é lembrada quando reproduzimos, quando somos culpadas pelo nosso comportamento desviante, quando sofremos algum tipo de violência sexual. Mas por que não se fala no prazer feminino? Na masturbação feminina?
Dar visibilidade as lésbicas é também dar visibilidade a sexualidade das mulheres, é explicitar que as mulheres sentem prazer a partir dos seus próprios corpos.

Por isso, somos mais que lésbicas, também somos vadias!
Somos vadias e sapatão porque lutamos para colocar a nossa expressão de gênero para além dos referenciais de masculino e feminino, queremos nos comportar, nos vestir, nos relacionar do jeito que escolhemos; queremos gozar com criatividade, tentando desconstruir o machismo de todas as formas.

Nós lésbicas não temos um padrão socialmente aceito. Mesmo se formos “santas” e comportadas não devemos expor nossos sentimentos, afetos e desejos… nossa dicotomia fica entre o armário/discrição e a o escancaro/ruptura. Por isso, a lésbica que escancara é a vadia, desrespeitosa, que afronta a moral e a família. Entendemos, dessa forma, que se assumir lésbica e vadia é uma questão política!
tumblr_lrbshz2NWa1qhia0no1_1280

Dessa forma, dar visibilidade às lésbicas é escancarar a nossa descoberta, é nos permitir, é romper com barreiras, é quebrar tabus, é tocar na ferida da sociedade heterossexual e machista. Por isso, fazemos um convite para a nossa vadiagem lésbica… vamos vadiar… vadiar sozinha, vadiar juntas, vadiar com nossas companheiras… com quem quisermos e do jeito que quisermos!

Nós mulheres somos apagadas como um todo da história, nós lesbicas ainda mais. Quantas referências lésbicas temos? Ainda nos movimentos precisamos apontar a nossa demanda e existência. Por isso queremos homenagear, relembrar com saudades da nossa companheira lésbica Vange Leonel, falecida precocemente em julho passado; esta, sem dúvida foi de grande importância para a visibilização da nossa existência e luta!

904_658735834152924_2113601570_n

Obs: Esse texto foi uma construção de mulheres, brancas, cisgêneras, lésbicas; por isso parte de reflexões das nossas experiências, longe de querer representar uma visão geral sobre mulheres pois não somos um todo homogêneo, temos diferenças e especificidades na nossa vivência.

Legalizar ou descriminalizar o aborto? Vamos discutir!

aborto_2

 

Neste ano de debates políticos acirrados, época de eleições, pensando na necessidade de visibilizar a luta por políticas públicas encaradas como ‘perigosas’ e prosseguir com a negociação em torno de direitos sexuais e reprodutivos, a Coletiva das Vadias de Campinas está dedicada a fomentar a discussão a respeito da legalização e descriminalização do aborto.

Esta pauta feminista envolve o direito ao nosso corpo, direito de escolha e a vida das mulheres, uma vez que estimativas divulgadas recentemente calculam que 1 mulher morre a cada dois dias em decorrência de abortos clandestinos, o que faz do aborto a quarta causa de mortalidade materna em nosso país.

Além disso, acabamos de ser derrotadas mais uma vez com a revogação da portaria 415 que regulamentava os casos de aborto legal (1 – em casos de gravidez decorrente de estupro; 2 – em casos de feto anencéfalo; 3 – em caso de risco de vida para a mãe) e estamos sujeitas ao lobby de políticos que advogam a revogação da lei que prevê o aborto legal para casos de violência sexual.

Sendo assim, acreditamos ser urgente a nossa mobilização para a construção de uma política de saúde pública que regulamente nosso direito ao aborto.
E ainda, acreditamos ser necessário o avanço do entendimento desta questão enquanto questão política e não moral ou religiosa.

Para fomentar este debate convidamos para a atividade:
Legalização ou Descriminalização do Aborto. Vamos discutir?

Dessa vez contaremos com a presença de uma médica e uma advogada para debater com a gente, dia 03/07, às 19h30, no Museu da Imagem e do Som de Campinas.

Evento no face

Bananas X Vadias

Uma banana jogada em direção a um jogador negro durante um jogo de futebol. Isso, o ato de racismo contra o jogador Daniel Alves. Depois a onda ‪#‎SomosTodosMacacos‬. A adesão e a polêmica. Uma campanha antirracista ou a reprodução de um racismo que é sempre do outro? Ai alguém argumenta: a palavra “macaco” ganha outro significado na campanha, o que pode ser comparado com o que acontece com a palavra “vadia” na Marcha das Vadias. Peraí!!! Não é a mesma coisa, não! Mexeu com uma, mexeu com todas! Vamos pra partida: bananas x vadias. A árbitra é Cidinha da Silva, que vai lançar um de seus livros e conversar sobre racismo no Brasil, mesmo aquele que se disfarça de boas intenções. Ah, os livros da autora estarão à venda!
Bate-papo com a escritora Cidinha da Silva sobre seu livro “Racismo no Brasil e Afetos Correlatos”

DATA: 10/05/2014 (sábado)
HORÁRIO: 16h30 às 18h30
LOCAL: Salão 1 da Estação Cultura de Campinas (Praça Marechal Floriano Peixoto, s/nº – Centro)

Organizaçao: Coletiva das Vadiashttps://marchavadiascampinas.milharal.org/
Blog da Cidinha da Silva: http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/

bate papo cidinha X

 

Relato de violência sexual: carnaval, repressão e tentativa de estupro

<<ATENÇÃO aviso de acionadores : violência sexual e agressão >>

No dia 03 de março de 2014 sofri uma tentativa de estupro no meio do carnaval, que deveria ser alegre e saltitante, nas mediações da Praça do Côco, em Barão Geraldo – Campinas – SP.

 OOUUREAResolvi escrever este pequeno relato pois acredito na força do empoderamento da fala, na potencialidade do rompimento das amarras de nossa voz, do rompimento de nosso secular silenciamento e, no compartilhamento das opressões para que elas talvez doam menos. Porque ao narrarmos as violências que sofremos encorajamos outras mulheres a falar sobre seus sofrimentos. Porque é preciso que adicionemos mais sujetividade nas estatísticas alarmantes de violência contra as mulheres.

Neste dia saí pela primeira vez para a festa de rua de Barão. Nunca fui muito afeita à atmosfera colorida e festiva do Carnaval, mas nesse dia tive vontade de sair e fui. Porque era o meu direito ir.semnome

Acompanhei cercada de amigas e amigos o Bloco do Cupinzeiro e depois fiquei junto com um monte de gente gritando os conhecidos sambinhas do Pagode do Souza ali na Praça do Côco.

Do nada, literalmente do nada, somos chocados com gás lacrimogênio, bombas e balas de borracha. Foi o horror! Primeiro não sabíamos o que estava acontecendo, logo estávamos sendo empurrados e nossa integridade física estava sendo ameaçada pelo braço violento do Estado que a princípio deveria  nos proteger.

Isso foi noticiado nos jornais, mas não noticiaram o momento em que senti mãos apertando meus braços, outras mãos me puxando e me vi sendo levada por três caras para um canto. Entrei em desespero. Não acreditava que aquilo estava acontecendo COMIGO.photo3

Na minha militância feminista estou acostumada com as estatísticas sobre estupro e achava que eu estava ciente de que isso acontece com qualquer mulher, todos os dias. E ainda assim eu não acreditava. Eu não sabia o que fazer. E a sensação de vulnerabilidade, inaptidão e impotência te preenche como uma presença forte que te deixa paralisada.

Eles eram três, e eu era apenas uma. Eles eram três homens acostumados a utilizar sua força, seus corpos para conseguir o que querem.

mural-integracion-latinoamericana4Nós estávamos sob a atmosfera lancinante, petrificante e estonteante do gás lacrimogênio e ainda assim eles cogitavam obter prazer de um corpo que não estava disponível para eles. É repugnante. Eu não conseguia entender. Tentei usar os parcos conhecimentos de boxe e defesa pessoal que possuo, em vão. Eles eram três, e eu era apenas uma. Reagi. Esperneei. Não adiantou.

Eles me deram muitos tapas na cara, me bateram, me chutaram, me jogaram contra a parede.espernear

Quando eles não conseguiram abrir o meu short jeans, porque eu estava de cinto, e eles estavam com muita pressa, eles me jogaram no chão e um deles colocou um pênis ereto, nojento, fedido, melecado, sujo e muito humilhante na minha bochecha, tentando colocá-lo em minha boca.

Enquanto isso um deles, não sei se era esse mesmo ou outro, chutava minhas costelas.

Como um presente irônico do destino, caiu uma bomba que os desatinou e eu consegui sair correndo. Foi realmente tudo muito rápido.

Saí correndo para encontrar uma Praça do Côco sitiada pela polícia, a mesma que deveria nos defender. imagesVi adolescentes chorando e fui conversar com elas, pedir que fossem logo para suas casas. Fui perguntar para a polícia o porquê de uma ação tão desnecessária. Fui empurrada por um policial, caí no chão de novo e aí, ao sentir a dor dos hematomas que rapidamente roxearam minhas coxas e bunda, lembrei que aquilo tinha sim acontecido, não era um devaneio de uma mente perversa.

Caída na sarjeta em prantos, fui socorrida por lindas mulheres que me abraçaram e levaram para braços amigos.

Eu não me lembro da cara deles. Eu não consigo me lembrar, e isso me dilacera, me atordoa.

Mas não devo sentir culpa. A culpa é toda deles. Da sociedade, do sistema, do machismo. Do que seja. Mas não é minha.

A surra de peru na cara tomou outro significado. O que antes era RÁ!, huuum!, Rough sex! Agora é doloroso cogitar.

E ainda assim o alívio: poderia ter sido pior. Poderia ter sido mil vezes pior. Sim, poderia, mas não posso deixar de lado a mudança que o que aconteceu causou em mim. Essas coisas te fazem perceber a profundidade das violências a que estamos submetidas. E elas talvez sejam menos físicas do que psicológicas…

 O que posso fazer agora??? Era a pergunta que ressoava.

 tumblr_mqpqy1EU0H1qgdvhco1_1280

Conversamos sobre possibilidades de ação na Coletiva da qual faço parte. O empoderamento que coletivos feministas proporcionam fazem com que o estilhaçamento de minha mente não tenha sido maior. E decidimos tornar o caso público.

No sábado posterior ao episódio, pude bradar com todas as minhas forças no 08 de março unificado da cidade de Campinas, pude dizer mais uma vez que minha sexualidade não é acessória, que meu corpo não está disponível para o bel prazer de homens loucos por poder, que o corpo é meu e eu dou pra quem eu quiser, que se ser livre é ser vadia então eu sou vadia siiiim, que eu quero poder andar na rua tranquilamente com a roupa que eu escolhi, sem medo de encontrar num beco ou num canto escuro a face daquele que vai me machucar. 75ad6312eb0fe5b902d4cb0b290abec0

Quase todas os machucados físicos já sararam, mas durante semanas tive que conviver com a dor dos hematomas ao deitar, ao tomar banho, ao me tocar, ao ser tocada.

Toda vez que olho a cicatriz que permanece em minha mão, lembro do cheiro ocre, vinagroso e macilento daquele pênis que queria penetrar minhas entranhas.

Sinto nojo. Nojo. Nojo. E raiva. Raiva. Muita raiva.

Pranto

Muita raiva de não saber o que fazer para reverter este quadro social tão desesperador de opressão às mulheres, aos negr@s, às lésbicas, aos gays, às trans, a todo mundo que é um pouco diferente da regra normativa imposta por uma ideologia “desigualizante”.

A única alternativa que me cabe, que nos cabe, é transformar essa raiva em força para a luta e ocupar todos os espaços que conseguirmos com o feminismo, para libertar o mundo enquanto libertamos a nós mesmas.

feminismo

 Decidi não denunciar. Claro que fiquei na dúvida, pensei nas estatísticas e como eu me omitiria sendo parte dessa luta todo dia?

Explico minha decisão, decidi não denunciar:

Primeiro porque a ação da polícia foi o que proporcionou o tumulto que proporcionou que eu ficasse longe dos meus amigos e que proporcionou que eu fosse agarrada. Uma grande parcela de culpa pelo ocorrido recai em minha análise sobre o aparelho coercitivo do Estado, e por isso eu não os perdoo. São eles que matam Amarildos e Claudias e, cegos pelo autoritarismo, ocupam diversas comunidades com sua própria lei, legalizando o terror.abbd1ab847f10fa7dc6b45a7aa10b111

Segundo porque eu não lembro da cara deles, não poderia haver nenhum resultado da denúncia além de meu caso se transformar num número seco, vazio, mais um…

Terceiro porque ainda que existam as Delegacias da Mulher, elas não contam com pessoal especializado que saiba lidar com esse tipo de caso e acolher a vítima. Quem participa de coletivo de mulheres e já acompanhou casos de denúncia sabe que o processo é todo muito doloroso e muitas vezes a pessoa desiste no meio, inclusive por insistência daqueles que deveriam protegê-la.

Eu não estava a fim de passar por todo esse processo, preferi denunciar por outros canais, para que outras mulheres saibam do episódio e fiquemos todas cada vez mais atentas e alertas.

Defendo que a decisão de denunciar ou não tem que ser da mulher, pois é ela quem vai ser humilhada, depreciada, por várias e várias vezes, sem saber se aquilo terá fim ou não. Vai ser questionada, levada a se auto incriminar, a desistir por falta de provas… que provas haveria nessa situação além do testemunho? Você é obrigada a ouvir pessoas dizendo que só penetração é estupro, ainda que já tenhamos conquistado legalmente que qualquer agressão sexual pode ser considerada estupro. E conseguimos isto no setor judiciário, argumentando com pessoas bem melhores em discussões do que aqueles que acham que as feministas estão sempre exagerando. E se um setor tão conservador foi obrigado a legitimar esta pauta quer dizer que o trem tá feio mesmo. É a constatação de uma estrutura tão machista, tão patriarcal que permite que os homens acreditem que nossos corpos são meros objetos voltados a seu prazer. E isso é inaceitável!

 Além disso, muitas e muitos de nós não compactuamos com o sistema prisional e com as medidas punitivas do Estado. Cada vez mais as denúncias alternativas (notas de apoio, comitê de direitos humanos, por exemplo) estão ganhando adeptos. A cada denúncia ou relato acredito que mais mulheres tomam coragem e expõem seus algozes. E precisamos agora dinamizar medidas, respostas para apoiar e acolher as mulheres que decidem não se calar.

Ninguém deseja passar por isso, antes de questionar uma vítima pensem que a maioria de nós não consegue imaginar o trauma que causa a vivência de uma violência.

img_1989-1

Se coloquem no lugar do outro, por um segundo. Por favor. O estupro é o coroamento das agressões e assédios que vivenciamos TODOS os dias, todas as horas.

É isso, o machismo mata, esfola, machuca, maltrata, viola, oprime todos os dias.

 

Mas isso não deve nos desanimar.feminismo2

Unidas, somos uma revolução! Juntas não há quem nos segure!

Não quero viver na cultura do medo, quero que a rua seja nossa!

Vamos à luta!

 Mexeu com uma, mexeu com todas!

Manifestação das Trabalhadoras Domésticas de Campinas nesta quarta, 02/04/2014

A Emenda Constitucional 72 foi aprovada em 2013, ela equipara os direitos das trabalhadoras domésticas às demais categorias. No entanto, para concretizar a equiparação, a lei requer regulamentação do Parlamento. O ato acontece em repúdio à inércia do Congresso e do Senado que há um ano não cumpriu este dever.

ato 020414